Mulheres Negras Não Recebem Flores

“De tempos em tempos analiso meus pensamentos e tento distinguir o que é problema social ou mera experiência pessoal. São muitos os exemplos que mostram que o racismo não é uma experiência vivida só por mim, mas também por várias das minhas manas. Essa é uma questão histórica.

Penso a partir de Lélia Gonzalez e seu conceito de Amefricanidade, e ainda posso dizer que sou uma brasileira miscigenada, descendente de pessoas negras trazidas da África, de indígenas donos das terras Pindorama e de um pouco de gente branca que aqui se instalou. Assim sendo, como a maioria das mulheres que compartilham dessas vivências, tenho minha ancestralidade apagada pelo colonialismo, sem saber quem são meus antepassados.

Na busca contínua de compreender onde me localizo no mundo, me via muitas vezes sozinha, sem saber onde me apoiar ou a quem recorrer. Minha experiência no mundo, enquanto uma mulher que não se enquadra no padrão da branquitude, foi marcada pela solidão e pelo medo da rejeição, não somente em contextos estruturais, mas também nas relações interpessoais.

Ana Claudia Lemos Pacheco já contextualizava esses sentimentos em sua tese sobre a solidão da mulher negra, que tem um conceito complexo e de muitas camadas, mas que resumo aqui como a ideia de que mulheres negras, pelo racismo e por estarem distantes do ideal de beleza (branco europeu), são preteridas por mulheres brancas e muitas vezes separadas entre o trabalho e o sexo. Por fim, com a dificuldade de estabelecer relações afetivas de longo prazo, acabam por liderar suas famílias sozinhas, sem um companheiro para dividir o sustento.

A rejeição e a dificuldade em lidar com a afetividade são sintomas que compõem a história da grande maioria das mulheridades negras brasileiras. De tanta carência histórica, o processo de pintar flores traduz minha busca incansável por afeto. Essa pesquisa fala sobre o que significa pertencimento para mim e para aquelas que, como eu, sentem a urgência de romper com os pactos coloniais. Assim surge a série antirracista “Mulheres Negras Não Recebem Flores”, criada por mim a partir de um texto da escritora Gabriela Moura que viralizou em 2019 na internet.

Durante a pandemia, me isolei com alguns amigos em suas casas e fiquei encantada com os arranjos de flores que as enfeitavam. A partir desse olhar, revisitei a memória e me lembrei de quando passei a vida inteira acreditando que eu não era digna de receber flores, de viver esse tipo de afeto.

Comecei então a fantasiar que essas flores, que já estavam em suas casas, eram na verdade para mim, por ocasião da minha visita. Passei a colecionar memórias dessas flores, criando pinturas e nomeando-as com o nome das pessoas que me “presenteavam”, cada uma única, com sua história e afeto, numa linha tênue entre ficção e realidade. Num tipo de delírio autorreferente, comecei a ver significado especial em flores que sequer eram para mim, até que me peguei pintando mesmo as de plástico.

Com o tempo, comecei a receber muitas flores, das mais diversas cores e tamanhos. Fui agraciada pelos presentes desses amigos que, num simples gesto de me enviar um buquê, conseguiram transformar o medo que eu sentia pela rejeição, criando em mim uma memória em que não cabe mais a solidão, mas sim a riqueza do afeto. São os meus amigos que me lembram que eu não só sou digna de receber flores, mas também de ser amada”.

Texto de Panmela Castro: Mulheres Negras Não Recebem Flores, 2021

Panmela Castro com as flores recebidas durante a abertura da exposição "Ostentar é estar Viva", na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Panmela Castro recebe flores de seus convidados na abertura da exposição "Ostentar é estar Viva", na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Panmela Castro recebe flores de seus convidados na abertura da exposição "Ostentar é estar Viva", na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Panmela Castro recebe flores de seus convidados na abertura da exposição "Ostentar é estar Viva", na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Panmela Castro recebe flores de seus convidados na abertura da exposição "Ostentar é estar Viva", na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Maybel Sulamita)”, óleo sobre linho, 70 x 50 x 8 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

Pintura da obra "Mulheres Negras Não Recebem Flores (Lula Buarque de Hollanda)", no antigo ateliê da artista no Rio de Janeiro.

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Lula Buarque de Hollanda)”, óleo sobre linho, 80 x 70 x 4 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

"Mulheres Negras Não Recebem Flores (Carollina Lauriano)", óleo sobre linho, 70 x 50 x 8 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

Pintura da obra "Mulheres Negras Não Recebem Flores (Carollina Lauriano)", no ateliê da artista em São Paulo.

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Andrea Mannelli)”, óleo sobre tela, 60 x 60 x 4 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

Pintura da obra "Mulheres Negras Não Recebem Flores (Daniela)", no ateliê da artista em São Paulo.

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Daniela)”, óleo sobre linho, 120 x 90 x 8 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Ademar Marinho)”, óleo sobre linho, 70 x 50 x 4 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Carolina Pedrosa)”, óleo sobre tela, 70 x 50 x 8 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

Pintura da obra "Mulheres Negras Não Recebem Flores (Heloisa Buarque de Hollanda)", no antigo ateliê da artista no Rio de Janeiro.

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Heloísa Buarque de Hollanda)”, óleo sobre linho, 70 x 50 x 8 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

“Mulheres Negras Não Recebem Flores (Ademar Britto)”, óleo sobre tela, 70 x 50 x 8 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro

Pintura da obra "Mulheres Negras Não Recebem Flores (Paulo Herkenhoff)", no atual ateliê da artista no Rio de Janeiro.