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Retratos Relatos 050 07/03/2022 - Direitos das Mulheres

200021 – “Retratos Relatos 050”, acrílica sobre tela, 50 x 40 cm 2020. Imagem: Acervo Panmela Castro 
200021 – “Portraits Reports 050”, acrylic on canvas, 19 3/4 x 15 3/4 in, 2020. Image: Acervo Panmela Castro

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso. Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu tô era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.

Retratos Relatos 050 07/03/2022 - Pintura

200021 – “Retratos Relatos 050”, acrílica sobre tela, 50 x 40 cm 2020. Imagem: Acervo Panmela Castro 
200021 – “Portraits Reports 050”, acrylic on canvas, 19 3/4 x 15 3/4 in, 2020. Image: Acervo Panmela Castro

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso. Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu tô era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.

Retratos Relatos 050 07/03/2022 - Retratos Relatos

200021 – “Retratos Relatos 050”, acrílica sobre tela, 50 x 40 cm 2020. Imagem: Acervo Panmela Castro 
200021 – “Portraits Reports 050”, acrylic on canvas, 19 3/4 x 15 3/4 in, 2020. Image: Acervo Panmela Castro

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso. Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu tô era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.

 Ana Coutinho, série Retratos Relatos 07/03/2022 - Direitos das Mulheres

“Ana Coutinho, série Retratos Relatos”, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2020. Imagem: Acervo Panmela Castro
“Ana Coutinho, Portraits Reports series”, oil on linen, 27 1/2 x 19 3/4 in, 2020. Image: Acervo Panmela Castro

Olá Panmela, boa noite 

Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.

Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.

Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. Às vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.

Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita e por me ler. Apesar do cansaço, agora sinto afeto.

 Ana Coutinho, série Retratos Relatos 07/03/2022 - Retratos Relatos

“Ana Coutinho, série Retratos Relatos”, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2020. Imagem: Acervo Panmela Castro
“Ana Coutinho, Portraits Reports series”, oil on linen, 27 1/2 x 19 3/4 in, 2020. Image: Acervo Panmela Castro

Olá Panmela, boa noite 

Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.

Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.

Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. Às vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.

Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita e por me ler. Apesar do cansaço, agora sinto afeto.

Suka, série Retratos Relatos 07/03/2022 - Direitos das Mulheres

“Suka, série Retratos Relatos”, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro
“Suka, Portraits Reports series”, oil on linen, 27 1/2 x 19 3/4 in, 2021. Image: Acervo Panmela Castro

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porquê. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porquê.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio à memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.

Suka, série Retratos Relatos 07/03/2022 - Justiça Racial

“Suka, série Retratos Relatos”, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro
“Suka, Portraits Reports series”, oil on linen, 27 1/2 x 19 3/4 in, 2021. Image: Acervo Panmela Castro

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porquê. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porquê.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio à memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.

Suka, série Retratos Relatos 07/03/2022 - Pintura

“Suka, série Retratos Relatos”, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro
“Suka, Portraits Reports series”, oil on linen, 27 1/2 x 19 3/4 in, 2021. Image: Acervo Panmela Castro

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porquê. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porquê.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio à memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.

Suka, série Retratos Relatos 07/03/2022 - Retratos Relatos

“Suka, série Retratos Relatos”, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021. Imagem: Acervo Panmela Castro
“Suka, Portraits Reports series”, oil on linen, 27 1/2 x 19 3/4 in, 2021. Image: Acervo Panmela Castro

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porquê. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porquê.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio à memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Direitos das Mulheres

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

“Catarina Cassange”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Enciclopédia Negra

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

“Catarina Cassange”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Justiça Racial

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

“Catarina Cassange”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Museus e Coleções de arte

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

“Catarina Cassange”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Pintura

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

“Catarina Cassange”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Retratos Relatos

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

“Catarina Cassange”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.