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Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas (Enciclopédia Negra)

Até praticamente a década de 1850 havia uma “capoeira escrava” com o perfil de africanos – destacadamente os africanos centro-ocidentais – e a população negra livre. No último quartel Oitocentista ele se prolifera com força e rapidez para vários centros urbanos, mobilizando a prática de pessoas livres, considerados brancos e mesmo letrados.  

Mulheres capoeiristas no século XIX? Quase cena surrealista, a edição do Jornal do Comércio de 26 de janeiro de 1878 noticiava que algumas “pretas” tinham sido presas por capoeiras. Na rua do Riachuelo acabaram capturadas três mulheres sob acusação de “peritas na capoeiragem”. Com o adjetivo de “destemidas” foram detidas as mulheres negras livres Isabel Maria da Conceição – conhecida vulgarmente como Nenê – Ana Clara Maria Andrade, juntamente com a escravizada Deolinda, pertencente ao Doutor Bandeira de Gouveia. Na ocasião da abordagem policial estavam todas em “renhida luta”, desafiando pedestres e depois as próprias autoridades. Identificada como prática – luta, ritual e dança – associada às grandes cidades atlânticas e à população negra, entre livres, africanos, escravizados e nascidos no Brasil – a capoeira e os “capoeiras” se proliferaram entre o final do século XVIII e ao longo do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Não se sabe com estas práticas se desenvolveram, repercutiram e alcançaram várias regiões brasileiras, junto aos setores livres e não-negros, como imigrantes no Rio de Janeiro, por exemplo.

No Rio de Janeiro, a cidade estava cheia de escravizados ao ganho, participantes do mercado de rua e também de capoeiras. Fica difícil imaginar cenários onde mulheres quitandeiras podiam ser também capoeiristas. O certo é que a cidade vai armar diariamente vários cenários onde música, alimentação, trabalho e cultura vão juntar experiências, produzindo outras. Na época em que as “peritas” e “destemidas” mulheres capoeiristas foram presas, o Rio de Janeiro já era dividido – territórios com cores de insígnias e distinção – em dois grandes grupos (subdivididos em maltas) de capoeira, alardeados em versos, suspeitos de usos políticos no jogo eleitoral e celebrizados em alguns romances: Nagoas e Guaiamuns. Não muito mais sabemos sobre as mulheres noticiadas em 1878. Fariam parte de algumas das conhecidas maltas: Três Cachos, Cadeira de Senhora, Espada, ou a principal, Flor da Gente? Indagações a espera de mais pesquisas. 

Mulheres negras na capoeira no século XIX sugerem pensar experiências envolvendo cultura e gênero bem mais antigas do que o estágio atual, no qual os capoeiristas e as práticas da capoeira alcançam mais de 200 países, entre homens, jovens, mulheres e crianças. Para a Bahia e a cidade de Salvador – locais onde a capoeira e vários mestres ganharam distinção e prestígio ao longo do século XX – aqui ou acolá há mais evidências de mulheres participando da capoeira como ritmistas, praticantes, aprendizes e desafiantes de lutas e combates. 

“Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas”, acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.