Blog

Felipa Maria Aranha (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Felipa Maria Aranha (Enciclopédia Negra)

Felipa Maria Aranha, foi líder do quilombo de Mola ou Itapocu; localidade disposta nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, um braço do Rio Tocantins, onde agora existe o município de Cametá, no estado do Pará. 

Ela organizou um quilombo na segunda metade do século XVIII, constituído por mais de 300 escravizados e escravizadas fugidos, que se auto sustentaram por muitos anos sem que fossem ameaçados pelas forças legais. Acredita-se que seja proveniente da região da Costa da Mina, no Golfo da Guiné, onde hoje estão localizados os países Gana, Togo, Benin e Nigéria. Deve ter nascido entre os anos de 1720 a 1730, tendo sido capturada em algum momento a partir de 1740, nessa que foi uma das regiões mais importantes para o tráfico de almas empreendido pelos portugueses. Vendida como escravizada, ela foi levada para a localidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará (atual capital do estado do Pará). Em seguida, foi enviada para trabalhar numa plantação de cana-de-açúcar na comunidade de Cametá.

Não suportando os maus tratos, Maria Aranha fugiu junto com outros escravizados no ano de 1750, e na região do baixo Tocantins criara o quilombo do Mola – mais exatamente nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, no território de Cametá –, um espaço por ela liderado, que ostentava alto grau de organização política, social e militar, sendo um dos maiores modelos de resistência à escravidão que a historiografia já encontrou. Tanto que, quando começaram a sofrer com a repressão colonial, foi graças à liderança militar de Maria Aranha, que foram vitoriosos ao expulsar as forças portuguesas e as várias incursões de capitães do mato.

Dona de grande capacidade de articulação política, Maria Aranha estruturou uma entidade composta por cinco quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança e Porto Alegre), a então chamada Confederação do Itapocu. A entidade empreendeu severas derrotas às forças escravagistas, e, diferentemente do exemplo de Palmares, somente cessou sua luta contra as autoridades escravagistas quando Portugal ofereceu perdão político e declarou quilombolas súditos da coroa. 

“Felipa Maria Aranha”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Maria Aranha morreu em 1780, ainda liderando a Confederação do Itapocu. No início do século XIX, além da liderança de Felipa, nas proximidades do rio Trombetas, perto de Óbidos, ainda na Amazônia, formou-se um quilombo, chefiado pelo cafuzo Atanásio, que chegou a contar com mais de 2000 habitantes que, além de plantar mandioca e tabaco, vendiam produtos colhidos nas florestas da Guiana Holandesa. Tudo leva a crer que estes quilombolas eram respeitados pela vizinhança, sendo suas crianças batizadas nas igrejas vizinhas. Além do mais, em pesquisas recentes feitas na região do Baixo Tocantins e que usam da história oral, há uma desmistificação da suposta subalternidade das mulheres negras.

Hoje se conhecem muitas outras histórias de como, no próprio quilombo do Mola, houve o protagonismo de outras mulheres negras que deixaram muitas histórias para a memória dos seus descendentes. A negra Maria Luiza Piriá ou Piriçá, registrou sua passagem neste quilombo, organizando e liderando a Dança do Bambaê do Rosário e na administração da própria vida dos quilombolas que ali viviam. Juvita foi mais uma dessas mulheres que fizeram a sua própria história e de seus povoados. Ao sair do quilombo do Mola ou Itapocu, ela fundou o Povoado de Tomázia e liderou o mesmo por muitos anos. As negras Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina e outras que tomavam parte do quilombo do Paxibal se embrenharam nas matas e realizavam tarefas em geral consideradas masculinas como: caçar, trabalhar na construção das improvisadas barracas de moradia – os tapiris cobertos e emparedados com palhas, como ubim e sororoca. Também atuavam na plantação de roças, na coleta dos frutos do mato, na pesca, na fabricação de utensílios de barro, de redes de dormir e de roupas feitas com fibras de curuanã e palhas de palmeiras.

Como se pode notar, a resistência e o protagonismo da mulher negra são históricos e tem suas raízes fincadas na tradição e na cultura de suas ancestrais africanas através de artifícios, artimanhas, improvisações e muita astúcia. Elas reinventavam o seu cotidiano e a sua importância no mundo, conseguindo assim, melhores condições para si e para os seus. Casos como o do povoado de Tomásia, que se uniu à já mencionada Confederação do Itapocu e o exemplo do Quilombo de Pixabal, no município de Baião, formado pela liderança das negras Leonor, Virgilina, Francisca e Maximiana descrevem histórias de líderes negras, que não foram apenas esposas ou companheiras. Protagonizaram e lutaram por suas próprias sinas e destinos nesse território da liberdade precária e precarizada. Já o quilombo de Maria Aranha só recebeu reconhecimento legal das suas terras recentemente, em 2013.

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.