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Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva (Enciclopédia Negra) 01/05/2021 - Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva (Enciclopédia Negra)

Um clube de leitura organizado por e para escravizados? Em plena década da Abolição? Estas seriam as notícias vindas do interior de São Paulo. Os escravizados Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva assinariam uma carta – publicada em vários periódicos de Minas Gerais – na qual solicitavam contribuições, especialmente envio de exemplares para o clube de leitura que tinham.

Em 1882, tal notícia — quase transformada em pilhéria, posto que considerada provavelmente surrealista e ao mesmo tempo verossímil e ameaçadora – era publicada nos periódicos mineiros “O Baependyano” e “O Colombo” que mencionavam a existência de um clube de leitura criado por abolicionistas em Bragança Paulista, não muito distante de Itu. Os signatários da carta — Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva – não eram apenas escravizados letrados, mas respectivamente presidente e secretário desta iniciativa abolicionista. Bem antes já tinham surgido notícias de associações abolicionistas que estavam estabelecendo cursos noturnos de alfabetização para escravizados libertos e seus descendentes. Desde a década de 1870 em várias partes do Brasil foi comum notícias semelhantes, embora não conseguimos ainda medir o alcance destas várias iniciativas e o número de negros e negras envolvidos.

“Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Acervo Panmela Castro

Em Bragança Paulista a coisa tinha começado através de abolicionistas — ligados ao jornal “O Guaripocaba”  — que tinham estabelecido escolas noturnas para pobres livres. Não muito esporadicamente, muitos libertos e filhos destes – além dos próprios escravizados – sempre procuravam por tais espaços e oportunidades. Alguns setores abolicionistas podiam mesmo estar interessados em fomentar leitura e alfabetização para escravizados.  Na organização do Clube Literário de escravos em Bragança havia turmas noturnas que contavam com o apoio de abolicionistas locais e professores voluntários. Daquele jornal – com sua face  positivista e participação maçônica local — setores brancos ajudariam na propaganda e na ampliação da iniciativa. O Clube de Bragança, fundado entre 1881 e 1882, funcionaria numa casa modesta no centro da cidade, chegando a ter cerca de 40 crianças. A novidade ficaria por conta da direção deste clube, contando com escravizados à frente.

Quais as expectativas destes escravizados com tal Clube de Leitura? O que isso significava diante num contexto onde se acusavam abolicionistas e monarquistas de manipularem os escravizados nas campanhas abolicionista e republicana? Ensinar os escravizados a ler para que eles participassem dos debates era um dos recados republicanos ao noticiar tais iniciativas. Só que escravizados não precisavam exatamente de letramento para fazer avaliações políticas da atmosfera em que viviam. A carta do Clube de Leitura, enviada para as redações dos jornais e a assinatura de signatários escravos — portanto já alfabetizados suficientemente — sugerem pensar mediações e símbolos nos enfrentamentos e mobilização negra. A carta publicada nos jornais falava – num tom autoral dos próprios escravizados – que eles eram “aviltados por sua abjeta condição” estando “eliminados do seio da humanidade e equiparados aos mais ínfimos animais”, portanto eram a “mancha negra do nome brasileiro”. Embora “sem pátria e sem liberdade” considerados “párias errantes” e “renegados de uma civilização” avaliavam que o letramento era a única solução, qual seja “que a instrução é o único meio possível” sendo isso “o motivo da fundação do Clube Literário dos Escravos em Bragança”. Os escravizados estavam dispostos a investir em “inauditos esforços empregados nas horas de descanso” no presente para fugir das “misérias de uma vida” no futuro. Atualizando o debate que falava de manipulação política e desinteresse dos fazendeiros pelo destino dos ex-escravos garantiam:  a “instrução é um preventivo necessário para os males sociais, que podem resultar da emancipação”. Afirmavam mesmo que era a “educação” que tinha que preparar a “liberdade”.

“Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Ph: Edouard Fraipont

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro disponível no site da editora Companhia das Letras e que pôde ser conferido na exposição homônima que aconteceu na Pinacoteca de São Paulo e no Museu de Arte do Rio.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.