Eat Art

Nesta série, Panmela Castro troca o suporte dos mórbidos muros de concreto da cidade por corpos masculinos, marcando sua presença no espaço privado e desafiando a moralidade masculina, fazendo da sexualidade feminina a protagonista.

“Eat ou arte para comer, unindo os imaginários do digestivo e do erótico. Se o Graffiti nos muros da metrópole parece, então, atualizá-la e, de certa forma, digeri-la, encenando a retomada do público como local por excelência do erguimento da pólis, agora mais como obra de seus praticantes que de seus gestores, ou seja, muros mais de carne viva que de concreto asséptico, a exposição “Eat Art” faz transmutar de vez, abandonando a metáfora, a pedra em carne. Não se trata, no entanto, de uma carne qualquer, mas de carne masculina, uma carne que tradicionalmente não se deixa comer, uma carne dura-quase-muro, cujo cimento é a honra do macho. Se na metrópole contemporânea os grandes monumentos, cansados da morbidez de sua dureza, já reclamam novos movimentos, uma maior feminilidade, a macheza também vem rindo de si. Anacrônicos, no entanto, sejam os gestores, sejam os guardiões da moral macha, ambos clamam pela mesma coisa – por uma dureza de outrora. E se há alguma coisa que estremece essa dureza, é a mulher sexualizada, a mulher protagonista de suas preferências sexuais.

De posse disso, então, Anarkia leva alguns machos até seu atelier e, a sós, despe-os, escolhe alguma parte de seus corpos-muros e os torna não mais apenas pele, mas também suor e tinta. Suor, tinta e pele compõem juntos, um cenário tensionado pela masculinidade aparentemente mais passiva do modelo e pela feminilidade talvez mais ativa da artista, balançando assim nossos códigos de gênero mais bem conhecidos. Claro, no entanto, que o odor sexual do ambiente e da interação pode produzir excitação não só no modelo, mas também na artista, o que fica explícito em algumas das fotos. A produção estética aqui não é mais apenas o Graffiti no corpo do rapaz, mas o convite, o aceite, o despir-se, os toques, as falas, os suores, quando, por fim, não se sabe mais quem come quem.”

Gustavo Coelho

Professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro,

Doutorando em Educação, Documentarista.

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